domingo, 12 de maio de 2013

Minha visita à Palestina: o genocídio de um povo

Tive a honra e o prazer de integrar a Segunda Missão de Solidariedade ao Povo Palestino que aconteceu entre os dias 18 e 24 de Abril, organizada pelo Comitê pelo Estado Palestino, articulação que reúne 70 entidades, entre as quais os maiores partidos da esquerda brasileira, as maiores centrais sindicais, o MST, organizações da juventude e demais movimentos sociais organizados.


Por Geraldo Galdino*


Tivemos a oportunidade de conhecer cidades, aldeias, povoados, nos reunimos com dezenas de entidades dos movimentos sociais e da luta pela resistência, conversamos com prefeitos, vereadores, governadores, dirigentes do governo, da OLP, e com os diversos partidos que compõe a frente que aglutina todos os setores que clamam por um Estado Palestino.


Brasileiros em missão de solidariedade na Palestina
A Segunda Missão de Solidariedade ao Povo Palestino esteve
na Cisjordânia em abril - Foto
Todos da delegação de 20 pessoas de vários estados tinham a compreensão de que aquele povo é vítima de uma das maiores perseguições da história mundial, mas nos contatos no dia a dia fomos tendo a dimensão real da tragédia que vitima aquele sofrido e pequeno país, muito maior e pior do que imaginávamos. Aquele sentimento de indignação que nos acomete quando assistimos aos filmes sobre o Holocausto foi nos tomando em cada relato, em cada depoimento, nas mostras de vídeos e fotos. Tudo isso nos deixava mais impressionados, mais chocados com os requintes de crueldade com que o governo judeu tenta exterminar um povo e ocupar completamente seu território. Curioso é que em cada reunião que participávamos a cobrança das lideranças era de que ao voltarmos ao país, nós denunciássemos amplamente o que vimos e assistimos, sabedores eles que a mídia internacional passa a imagem de que eles são os "terroristas" e que os judeus seriam as vítimas de perseguição, que "Israel tem direito de se defender" (como repete com frequência Obama, avalista e cúmplice da carnificina promovida por seus parceiros sionistas).

Para entrarmos na Palestina, vindos da Jordânia, nos deparamos com um denominado "check-point" (são cerca de 600 no país) onde assustadores judeus armados com fuzis promovem todo o tipo de constrangimento e provocações a quem tenta visitar o país. Tive a oportunidade de assistir a um judeu argentino humilhar uma senhora palestina que tentava atravessar a fronteira de seu país, umas das cenas mais deprimentes que vi na vida, demonstração cabal do racismo posto em prática contra um povo. O pior de tudo é assistir a isso e nada poder fazer, pois se alguém ousa protestar pode ser preso, acusado de terrorismo e passar o resto da vida na cadeia e nunca mais ter direito de ver a família. É assim que funciona por lá.

Tivemos a satisfação de visitar a bela cidade de Betúnia, onde reside uma comunidade brasileira. Lá fomos recebidos pelo prefeito, vereadores e tivemos a companhia do embaixador do Brasil num ato na prefeitura local. De lá seguimos para um almoço de confraternização num parque infantil onde ouvimos os hinos dos dois países. Bem do lado dessa cidade, em território palestino, existe uma prisão do exército judeu com cerca de mil presos - são mais de cinco mil presos políticos -, o maior do mundo. Todos eles são condenados sumariamente por um tribunal militar sem direito a defesa. Muitos vão morrendo por estarem doentes (impossibilitados de tratamento), outros nas sessões de torturas físicas e psicológicas, que incluem jovens de 12, 13 anos (aqui, texto sobre uma matéria publicada no jornal britânico The Independent, sobre o tema).

Conhecemos na cidade de Cobar dois ex-presos políticos que passaram mais de 30 anos detidos. Um deles conheceu os filhos na prisão - eles também foram presos por participarem de protestos contra a ocupação do país. Muitos jovens fazem questão de ser presos com objetivo de conhecer os pais na prisão. E são condenados a penas desproporcionais por jogarem pedras em soldados invasores (essa modalidade de "crime" é considerada pelo estado judeu como "terrorismo"). Neste pequeno lugarejo vimos cenas que nos deixaram perplexos. Em um vídeo mostrado pelas lideranças locais, os soldados judeus, como fazem em todas as localidades, invadiram a vila com um aparato de guerra gigantesco, assassinaram um jovem palestino com uma bomba no rosto, sequestraram uma criança (que depois vai ser torturada e obrigada e acusar alguém de "terrorismo"), espancaram mulheres, destruíram casas e agrediram com violência os que foram protestar contra a covardia. No geral é assim o dia a dia do palestino, coisas que nos fazem lembrar os horrores praticados por Hitler contra os judeus, que agora, em sua maioria, se calam ou apoiam a carnificina posta em prática por seus governos.

Estivemos em outra vila de nome Bilin, onde as lideranças locais promovem manifestações semanais contra a ocupação. No dia, houve uma partida de futebol em homenagem a um jovem que fora assassinado pelas forças de ocupação e logo depois alguns poucos jovens se concentraram em frente ao "muro da vergonha" ou "muro do apartheid", (com 800 quilômetros de extensão e ladeado por cercas elétricas) e jogaram pedras (uma forma simbólica da luta pela resistência) contra os soldados do outro lado do muro, todos eles devidamente protegidos e imunes às pedras. A resposta do exército sionista foi de cerca de 100 bombas de variados tipos, pimenta, lacrimogêneo, etc. (as armas criadas por Israel são testadas no dia a dia contra o povo palestino, cobaias da máquina de assassinatos dos sionistas). Delegações de várias partes do mundo se concentram no local para assistir à manifestação (inclusive judeus) e mesmo assim, sem qualquer constrangimento, uma brutalidade descomunal é a resposta do Estado terrorista de Israel. Do outro lado do muro, os colonos assistem e se divertem em uma espécie de "camarote" o poder de fogo de suas forças armadas.

A ONU decidiu em 1948, sensibilizada com o Holocausto, dividir o território palestino para abrigar os judeus (os colocando com 52% e deixando os palestinos com 48%). De lá para cá, ancorados num aparato de mortes avassalador e sempre apoiados e sustentados pelos EUA, eles foram ocupando pouco a pouco a parte que não lhe cabia (a metade palestina, que hoje só dispõe de cerca de 12% do que tinham na partição), desrespeitando todos os acordos e leis internacionais. Em todo esse processo ininterrupto deocupação ilegal, com reiterados massacres em massa dos nativos, milhões de palestinos partiram para o exílio (um número calculado atualmente em 6 milhões de pessoas, metade da população palestina).

A Palestina é proibida pelos invasores de ter portos e aeroportos (o que havia em Ramalah foi bombardeado e hoje é zona ocupada pelos sionistas). A água do país, que vem do famoso rio Jordão, é desviada para o território israelense e depois reenviada de onde veio e cobrada do povo. Isto é uma fonte permanente de chantagem, pois a qualquer momento eles reduzem ou cortam a depender da vontade do colonizador. Luz e telefone funcionam da mesma maneira.

Das dezenas de coisas revoltantes que vimos, uma me chamou a atenção por ser uma forma estarrecedora de crueldade. A Palestina, com uma economia frágil, por razões óbvias, tem na agricultura a fonte de renda e sobrevivência de grande parte da população. Lá, há mais de cinco mil anos se cultivam as oliveiras, fonte de produção do azeite de oliva, de qualidade indiscutível. Pois, passando de ônibus nas beiras das estradas, vimos uma vasta área de perder de vista, com todas as árvores arrancadas pelos colonos judeus protegidos pelo exército invasor. Como a religião judaica não permite que se arranque as raízes das plantas, eles deixam apenas um pequeno toco acima da terra. Em outros locais, vimos todas as plantações queimadas. Segundo matéria publicada no site da “insuspeita” revista Veja, somente entre janeiro e setembro de 2011, foram cortadas e queimadas 7.500 oliveiras pelos colonos judeus e desde 1967 foram mais de 800 mil (a matéria pode ser lida aqui).

Quando o nosso guia, um palestino absolutamente generoso e educado, nos informou que na cidade de Hebron tinha uma diferente modalidade de ocupação (os colonos ocupam a parte superior da casa dos palestinos e passam a residir no local), eu confesso que tive dificuldade de entender, supondo ser uma brincadeira. Não era. Vimos de perto. O Estado judeu recruta colonos mundo afora com salários de $7.500 mensais apenas para morar nas colônias. Em Hebron, eles ocupam os lados da cidade e também por cima, e lá de cima, jogam todos os tipos de dejetos nos palestinos embaixo, que usam redes para se protegerem da imundície arremessada pelos judeus.

Numa das reuniões que participamos, o governador de Jerusalém fez uma análise pertinente. Para ele, a política de Israel e das potências aliadas (EUA e União Européia) é de empurrar o povo palestino aos poucos para fora do país e no futuro aquela região ser totalmente dominada e controlada pelos sionistas, que imagina ser ali a “terra prometida, a "terra santa". Ele cita o exemplo de sua cidade, onde os moradores são proibidos de construir novas moradias (e quando constroem, o exército derruba), enquanto ao redor vão sendo construídas mais e mais colônias judias.

Para boa parte dos habitantes, especialmente os jovens no desemprego, em meio a esse cerco hediondo, o melhor é procurar alternativa em outros países, já que seu destino pode ser o cemitério. Um empresário palestino/brasileiro, sem esperanças, me disse em Ramalah que iria embora. Para ele, o futuro do país é ser ocupado integralmente pelos colonizadores assassinos. "Não temos como enfrentar o exército de Israel e os americanos juntos" disse desconsolado. É a política deliberada por Israel/EUA surtindo os efeitos desejados.

O escritor uruguaio Eduardo Galeano resume assim a atual situação:

Já resta pouca Palestina. Passo a passo, Israel está apagando-a do mapa. Os colonos invadem, e atrás deles os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacralizam a pilhagem. O apetite devorador se justifica pelos títulos de propriedade que a Bíblia outorgou. Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem permissão. Perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, seu tudo. Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, que burla as leis internacionais, e é também o único país que legalizou a tortura de prisioneiros. Quem lhe deu o direito de negar todos os direitos? Ou essa luz verde provém da potência manda chuva que tem em Israel o mais incondicional de seus vassalos? Por acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade? O exército israelense, o mais moderno e sofisticado mundo, sabe a quem mata. Não mata por engano. Mata por horror.

No mesmo período em que estávamos lá, o craque jogador da seleção portuguesa, Cristiano Ronaldo, se recusou a trocar a camisa com jogadores da seleção de Israel alegando "não usar camisa de assassino".

Muitos palestinos falam que o que o país vem passando trata-se de uma “faxina étnica”. Alguns por lá comparam o sionismo ao nazismo. Galeano fala em “guerra de extermínio de um povo”. Não devemos duvidar: está em curso na Palestina uma política deliberada de expulsar/destruir uma população sem que nada seja feito pela “comunidade internacional”, essa associação de estados imperialistas que já invadiu e bombardeou outros países com o argumento cínico de “razões humanitárias”. Todos os amantes da paz, da liberdade e da autodeterminação dos povos devem apoiar a luta em defesa do Estado Palestino e contra o genocídio de seu povo.

Outras missões de solidariedade vão acontecer e todos estão convidados a conhecer esse pequeno e bonito país de uma gente maravilhosa, hospitaleira, que em que pese todo o sofrimento, resiste com altivez e perseverança.

Geraldo Galindo é presidente do PCdoB em Salvador (BA)

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Stephen Hawking recusa ir a Israel, em defesa da Palestina

Físico recusa convite para conferência patrocinada pelo Presidente Shimon Peres, apoiando boicote lançado por grupo acadêmico britânico.


Stephen Hawking recusa ir a Israel, em defesa da Palestina
Não é de agora o interesse de Hawking pelo destino
da Palestina Paul McErlane/REUTERS

Clara Barata 09/05/2013

O físico britânico Stephen Hawking vai boicotar uma conferência patrocinada pelo Presidente israelita, Shimon Peres, e faz questão de que se saiba que é por causa da Palestina. Em Israel, é a indignação; do lado dos activistas palestinianos, o júbilo: Hawking é o mais importante cientista a dar o seu apoio à iniciativa de um grupo de académicos britânicos que apela ao boicote de Israel.

A Universidade de Cambridge, no Reino Unido, onde Hawking é director de investigação do Departamento de Matemática Aplicada e Física Teórica, anunciou inicialmente que era por motivos de saúde que o cientista que associou o seu nome à radiação que provou ser emitida pelos buracos negros (antes pensava-se que nada escapava a estes gigantes que tudo devoram em seu redor) não iria à 5.ª conferência Enfrentar o Futuro 2013, de 18 a 20 de Junho, que este ano assinala também o 90.º aniversário de Shimon Peres.

Hawking, com 71 anos, tem uma debilitante doença (uma forma de esclerose lateral amiotrófica, que o imobiliza e o impede de falar sem ser graças a um programa informático ligado à sua cadeira de rodas). Mas a informação de que estava com problemas de saúde que o impediriam de fazer a viagem até Israel foi corrigida num segundo momento pelos serviços de imprensa: a decisão de Hawking “baseou-se em conselhos de académicos palestinianos de que deveria respeitar o boicote”.

O boicote em causa foi decretado pelo Comité Britânico pelas Universidades da Palestina (Bricup, na sigla em inglês), que divulga o apelo ao boicote de universidades e instituições culturais israelitas, lançado em 2004 em Ramallah por várias organizações palestinianas. Uma declaração publicada no site desta organização com a autorização do cientista explica que Hawking “decidiu de forma independente respeitar o boicote, baseando-se no seu conhecimento da Palestina, e no aconselhamento unânime dos seus contactos naquele território.”

Não é a primeira vez que Stephen Hawking toma uma posição a favor da Palestina, que visitou em 2006, no âmbito de uma viagem a Israel e a Ramallah, numa viagem organizada pela embaixada britânica em Israel. Em 2009, pronunciou-se contra a operação Chumbo Fundido, o ataque de três semanas de Israel contra Gaza, recorda o jornal britânico The Guardian. No canal de televisão Al Jazira afirmou que a resposta israelita aos tiros de rocket a partir de Gaza “era claramente desproporcionada”. “A situação é como a da África do Sul antes de 1990 e não pode continuar”, concluiu.

Da parte de Israel, este boicote de Hawking a uma conferência onde estarão nomes como o ex-presidente norte-americano Bill Clinton ou a cantora Barbra Streisand é incompreensível. “Esta decisão é injustificável e é errada”, disse Israel Maimon, o presidente da conferência.

Nas últimas quatro semanas, desde que foi anunciado o programa da conferência, com a presença de Hawking, o cientista tem sido bombardeado com mensagens de académicos britânicos e de outros países para que a boicotasse, diz o Guardian.

A campanha de boicote da Bricup está em pleno. Em Abril, o Sindicato Irlandês de Professores tornou-se a primeira associação de professores europeia a apelar ao boicote de Israel, e nos EUA a Associação de Estudos Asiático-Americanos decidiu em votação apoiar este boicote, tornando-se o primeiro grupo académico norte-americano a fazê-lo.

Se vários artistas britânicos já anunciaram a sua decisão de boicotar Israel – como Annie Lennox, Elvis Costello, Roger Waters, Mile Leigh ou Brian Eno, Stephen Hawking é o primeiro cientista de renome mundial a tomar esta posição. E a reacção no Facebook, por exemplo, foi feroz, com acusações de anti-semitismo e comentários a concentrarem-se nas suas limitações físicas – e no facto de a tecnologia da sua cadeira de rodas especial ter sido desenvolvida por uma subsidiária israelita da empresa norte-americana Intel.

Fonte: Publico




O físico Stephen Hawking boicota Israel - Charge de Latuff


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