quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Filmes e debate sobre a questão palestina na 12ª Mostra do Cinema Árabe

Filmes sobre a questão palestina



Filmes  “SANAÚD-VOLTAREMOS“  e  “FORA DO QUADRO: REVOLUÇÃO ATÉ A VITÓRIA” com debate após a exibição

14/Agosto – segunda – 19 h – Cine Sesc

Condomínio Edifício Augustus - R. Augusta, 2099 - Cerqueira César, São Paulo

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Após a exibição dos dois filmes ( duração de 1h:30 min) será realizado um debate com:

Emir Mourad–Editor do Blog Sanaúd e ex-secretário geral da FEPAL - Federação Árabe Palestina do Brasil

Milton Barbosa – Dirigente do MNU – Movimento Negro Unificado e membro da delegação brasileira que visitou Yasser Arafat em 1980.

Rami Nihawi - Produtor do filme “Fora do Quadro: Revolução Até a Vitória”

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SAIBA MAIS SOBRE OS DOIS FILMES E SOBRE OS INGRESSOS: https://goo.gl/Kgt3AP

Esta atividade integra a programação da 12ª Mostra Mundo Árabe de Cinema - De 9 a 16 de agosto no CineSesc: https://goo.gl/17GdCr


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Conheça mais sobre o filme “Sanaúd-Voltaremos” e sua relação com o movimento de jovens solidários com o povo palestino no inicio da década de 80: https://goo.gl/MohDM1



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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A islamofobia e as mentiras sobre a embaixada da Palestina no Brasil



Ualid Rabah*



Têm circulado, com alguma frequência, nas chamadas redes sociais, vídeos amadores feitos por meio de celulares manuseados por extremistas brasileiros PRÓ-ISRAEL, nos quais se referem à nova sede da EMBAIXADA DA PALESTINA no Brasil como uma SEDE DE TERRORISTAS, ou como uma espécie de princípio de uma INVASÃO do Brasil pelo ISLAMISMO e outras ilações à semelhança e tão infundadas quanto.

Estes vídeos, gravados em frente à EMBAIXADA, quase todos de quando ela ainda em construção, mas já avançada, ao ponto de se poder ter ideia de sua arquitetura, de reprodução da MESQUITA DO DOMO DA ROCHA, de Jerusalém, são obra de mais de uma pessoa, mas o conteúdo e a forma com que se dão as narrativas são quase IDÊNTICAS, razão pela qual, cremos, trata-se de campanha orquestrada por ISRAEL e seus aliados e apoiadores fanáticos e extremistas no Brasil, racistas, xenófobos e intolerantes a qualquer mínima diferença e que, em nosso meio, são a ponta de lança da ISLAMOFOBIA e da DIFAMAÇÃO de todas as demais religiões que não se alinhem ao primado da JUDAIZAÇÃO sionista do CRISTIANISMO, isto é, de seu alinhamento acrítico com Israel e de defesa incondicional de suas políticas e de seus crimes na Palestina e pelo mundo.

A prova de que se trata de uma orquestração planificada por Israel e seus apoiadores internos é que faz poucos dias (talvez 11/07/2017, com postagem virtual três dias após) novo vídeo circulou (ver logo abaixo ou no Facebook), dessa vez tendo por protagonista uma mulher que se apresenta como JANE SILVA, pastora de uma unidade da Igreja do Evangelho Quadrangular em Belo Horizonte (MG), por 20 anos consecutivos (segundo a própria), encerrados em 2002, sem explicação pública ou publicada crível – teria sido “chamada” por algo que diz ser “deus” para algo que denomina “ministério internacional”, que a levou a morar em Jerusalém por 2 anos (também informação da própria) e à organização de iniciativas e/ou fundação de organizações de defesa de Israel, dentre estas uma tal COMUNIDADE INTERNACIONAL BRASIL-ISRAEL, que diz atualmente presidir.


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À exceção de um RABINO, inclusive estrangeiro (israelense, pelo sotaque), os demais a produzirem estes vídeos e os veicularem são, grosso modo, o que denominamos “cristãos sionistas”, em regra negociantes da fé mascarados de pastores (ou pastoras, como Jane Silva) e encastelados em CNPJs de Cristo a que denominam igrejas “evangélicas”, na esmagadora maioria dos casos pentecostais e/ou neopentecostais. É com vistas a combatê-los em suas grosseiras mentiras e manipulações, e com isso restabelecer a verdade, bem como no espírito de colaboração (municiar com alguns dados a respeito todos aqueles que desejarem fazer a defesa da Palestina e da verdade quanto à sua Embaixada e, de consequência lógica, a defesa do Brasil), que tecemos as reflexões que seguem.

Primeiro, todos os terrenos das embaixadas no Brasil foram doados pelo Estado Brasileiro. E todos têm o mesmo tamanho (terreno) e estão localizados basicamente na mesma região de Brasília, destinada às representações diplomáticas dos Estados reconhecidos pelo Brasil e que, em termos de RECIPROCIDADE, igualmente reconhecem o Brasil.

Obedecendo à RECIPROCIDADE, a Palestina também DOOU AO BRASIL terreno equivalente, para a construção de sua sede diplomática (EMBAIXADA) em Ramallah, sua atual sede administrativa (sua capital, de acordo com as resoluções da ONU, bem como pelo amplo reconhecimento da Comunidade Internacional, é JERUSALÉM), cabendo ao Brasil construí-la ou não (pode ser que aguarde a resolução da ocupação ilegal de Jerusalém por Israel para lá construir sua sede diplomática definitiva).

Este procedimento é praticamente IDÊNTICO em todos os demais países. Logo, é assim que se dá o relacionamento da Palestina com os demais países e destes para com a Palestina. É um protocolo simples e de conhecimento de todos, talvez ressalvados os extremistas defensores de Israel, cuja ignorância, em si mesma, é a razão de tal apoio.

O Brasil e a quase totalidade dos países no mundo reconhecem a Palestina como ESTADO SOBERANO, na mesma linha que o faz a ONU, razão pela qual a Palestina já é ESTADO MEMBRO da mesma ONU, porém, ainda, com status de Estado observador, idêntico, por exemplo, ao do VATICANO. E isto só segue assim por conta do injustificável VETO dos EUA, já que todos os demais estados com direito a VETO (Rússia, China, Inglaterra e França) no Conselho de Segurança da ONU não têm esta posição negativa para com a Palestina.

O próprio VATICANO, por excelência a MAIOR e mais IMPORTANTE entidade representativa da CRISTANDADE no mundo, reconhece a Palestina como ESTADO SOBERANO, razão pela qual tem sede diplomática na PALESTINA, e, no espírito de RECIPROCIDADE que caracteriza estas relações, tem a Palestina sua EMBAIXADA no Estado do VATICANO. E esta relação entre Vaticano e Palestina não é diferente da relação soberana, de estados soberanos, que há entre Brasil e Palestina.

Já quanto à arquitetura da embaixada, criminalizada por reproduzir uma mesquita, temos que a nova sede da diplomacia palestina no Brasil apenas reproduz a chamada MESQUITA DO DOMO DA ROCHA (não é de AL AQSA, portanto, como alguns dos extremistas veicularam) porque em todas as RESOLUÇÕES da ONU e frente a todo o DIREITO INTERNACIONAL, JERUSALÉM (Oriental) é destinada à Palestina, inclusive para ser sua CAPITAL. E a cidade VELHA de Jerusalém, a que ainda é murada (não confundir com o MURO DO APARTHEID, edificado por Israel – para tomar à força ainda mais terras palestinas, bem como todas as suas nascentes de água – e condenado mundialmente, inclusive pela Corte Internacional de Justiça, da ONU), está na parte ORIENTAL e pertence, pelos arranjos legais da COMUNIDADE INTERNACIONAL, aos palestinos, ao seu Estado e sendo a sua CAPITAL. Logo, a reprodução é a afirmação deste primado do DIREITO INTERNACIONAL e das resoluções da ONU. Além do mais, caso imaginássemos um símbolo para integrar uma logomarca promocional da Palestina, muito possivelmente se escolheria a cúpula dourada da Mesquita do Domo da Rocha, dominante em todos os registros fotográficos de Jerusalém desde tempos imemoriais (porque as gravuras, as fotos de outrora, já o faziam bem antes do milagre fotográfico da modernidade).

A falácia do terrorismo


Quanto a ser ou não, a EMBAIXADA da Palestina no Brasil, uma “sede do HAMAS”, isto não passa de afirmação deslocada da verdade e do que de fato há na Palestina. Primeiro porque uma sede diplomática não pertence a partidos, mas a ESTADOS. As embaixadas do Brasil no exterior, por exemplo, não pertenceram ao PMDB quando José Sarney era presidente, ou ao PSDB quando éramos governados por Fernando Henrique Cardoso, nem ao PT durante os mandatos de LULA e DILMA. Assim, a EMBAIXADA palestina no Brasil é a representação diplomática do ESTADO DA PALESTINA, seja ele governado por qual força seja ou vier a ser. Os governos de cada país decorrem das escolhas soberanas de seus povos e o respeito às soberanias nacionais é um dos princípios fundacionais da ONU, bem como um dos princípios basilares do DIREITO INTERNACIONAL, do qual decorre o princípio maior a orientar as relações entre as nações, o da NÃO INGERÊNCIA.

Ademais, o GOVERNO PALESTINO, assim reconhecido por todo o mundo, não é presidido pelo HAMAS, mas por um GOVERNO DE COALIZÃO, liderado por AL FATAH, partido (e força de resistência) fundado por YASSER ARAFAT. Al Fatah, atualmente, é presidido por Mahmoud Abbas, também conhecido como ABU MAZZEN, e é ele o atual PRESIDENTE da PALESTINA, reconhecido como tal (ele e seu governo) inclusive pelos EUA e pela UNIÃO EUROPEIA, para não falar de todos os países das Américas do Sul e Latina, bem como por Japão, China, índia, Rússia, África e Ásia praticamente totalizadas e assim vai. O Governo de coalizão liderado por Abu Mazzen reproduz, praticamente, a mesma composição da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), mundialmente reconhecida como a ÚNICA E LEGÍTIMA REPRESENTATE DO POVO PALESTINO, o que a levou, inclusive, a ter assento na ONU, na condição de organização OBSERVADORA, mesmo antes do reconhecimento da Palestina como Estado.

Quanto ao HAMAS, malgrado as divergências que se tenha para com algumas de suas posições, inclusive muito presentes no seio palestino, trata-se de um partido e, ao mesmo tempo, de uma organização de resistência à OCUPAÇÃO ISRAELENSE, como o são as demais forças políticas palestinas. Logo, nem de longe pode ser apresentado como organização “TERRORISTA”. Quem assim o faz são os ISRAELENSES e seus apoiadores, como já o fizeram com a própria OLP, ou com o AL FATAH, ou com YASSER ARAFAT, e mesmo com o atual presidente palestino, ABU MAZZEN, em outros tempos, algo que poderá se repetir, a depender das conveniências. É, basicamente, a mesma acusação que faziam, EUA incluídos (e ISRAEL, claro), a NELSON MANDELA, quando preso por resistir ao APARTHEID na África do Sul, bem como à sua organização política, o Congresso Nacional Africano (CNA, ou ANC, sigla por suas iniciais em inglês). Esta acusação, portanto, utilizada também contra os VIETNAMITAS nos anos 1960/70, quando da guerra genocida patrocinada e promovida pelos EUA, não é novidade aos oprimidos pelos colonialismo e imperialismo. E sua reprodução em nossos dias só é feita por pessoas desinformadas ou deformadas pela ausência de caráter ou, claro, como o caso que ora nos toca, por defensores abertos e desavergonhados de Israel e de seus mais atrozes crimes de lesa humanidade, na Palestina e fora dela.

Neste sentido, mesmo países ou organizações de países que já catalogaram o HAMAS como organização “terrorista”, nos últimos tempos REVISARAM suas posições. É o caso, por exemplo, da UNIÃO EUROPEIA, que em 17 de dezembro de 2014, por meio de seu Tribunal de Justiça (da União Europeia), anulou a inclusão do Hamas na lista de organizações “terroristas”. O Brasil não cataloga o HAMAS como terrorista, bem como a quase totalidade do mundo. Então temos que a UNIÃO EUROPEIA, maior união econômica e política de nações do mundo, NÃO DÁ O HAMAS (e nenhuma das demais organizações partidárias e da resistência palestina) como TERRORISTA, além da própria ONU. Países que fazem a diferença, como Rússia e China, para não falarmos da Índia e do Japão, também REFUTAM a catalogação do HAMAS como organização “TERRORISTA”.

Para além das considerações equivocadas dos reais inimigos da causa da Palestina, bem como das divergências políticas e ideológicas existentes entre os palestinos, a atual liderança palestina tem buscado, com vigoroso empenho, integrar à OLP todas as forças políticas e de resistência de seu seio, Hamas e Jihad Islâmica consideradas, passo importante para a construção de um GOVERNO DE UNIDADE NACIONAL, capaz de unificar o povo palestino e, assim, melhor e com mais força o conduzir à realização de seu sonho nacional. Este esforço é sabotado por Israel e seus ainda apoiadores, dentre outras coisas com a acusação feita ao HAMAS e a outras organizações legítimas palestinas, dentre outras coisas de práticas “terroristas”, ainda que sabidamente não façam mais do que resistir à ocupação e aos crimes de Israel na Palestina ocupada e sob LIMPEZA ÉTNICA. Criticar o Hamas por suas políticas e visões de mundo é possível e legítimo, mas isto não pode ser confundido ou utilizado para criminaliza-lo e, no bojo, a toda a resistência palestina, que é infinitamente maior que uma só de suas organizações, bem como muito mais plural.

Nenhum centavo doado pelo Brasil


Outra ilação sem tamanho é dizer que o Brasil DOOU R$ 25 milhões para a construção da Embaixada da Palestina. Isto é absolutamente FALSO. Todos os recursos despendidos na obra são palestinos. Não há um só REAL doado pelo Brasil. O máximo que se pode dizer, caso se queira buscar uma justificativa para esta cifra ou para sua razão de ser, é que o terreno doado seja avaliado em tal ou qual valor. Só isso e apenas eventualmente. Entretanto, ainda que como mera premissa, isto é IRRELEVANTE, já que todo terreno doado tem um dado valor pecuniário, bem como que todos os países com diplomacia aqui sediada também tiveram o mesmo tratamento e, por fim, porque HOUVE RECÍPROCA da Palestina para com o BRASIL, que recebeu, também por DOAÇÃO, um terreno equivalente em Ramallah, atualmente sede administrativa da Palestina, para lá edificar sua (nossa) EMBAIXADA, ou em Jerusalém, quando esta for libertada, momento em que se permutará o terreno atual por outro, na eterna capital palestina.

Brasil sempre reconheceu a Palestina


Quanto à ideia de que é a partir do governo de coalizão liderado pelo PT que a Palestina passa a ter relacionamento diplomático com o Brasil, trata-se de outro equívoco tremendo, quase patético. Na verdade, desde a chamada PARTILHA DA PALESTINA, por meio da Resolução 181, da ONU, que apenas RECOMENDAVA se desse a partilha, com vistas à criação, às expensas dos palestinos, de um ESTADO “JUDEU”, que o Brasil reconhece os DIREITOS PALESTINOS. O Brasil jamais aceitou que os palestinos não tivessem seu Estado (registre-se que o Brasil nem mesmo era, em princípio, favorável à PARTILHA mesma, somente passando a sê-lo a partir do Governo DUTRA, que resolveu se alinhar automaticamente aos EUA, quase que inaugurando, de fato, a GUERRA FRIA que viria depois, o que acarretou a imposição à legação diplomática brasileira na ONU de alinhamento com a ideia da PARTILHA, do que decorreu o criticado papel de Osvaldo Aranha na condução dos trabalhos, na condição de Chefe da Missão Brasileira junto à ONU e, especialmente, de presidente da sessão da mesma ONU que, sob chantagens e manobras ilegais e imorais, aprovou a recomendação da partilha).

Isto por um lado e bem resumidamente. Por outro lado, o aprofundamento das relações do Brasil com a OLP remonta ao Governo de ERNESTO GIESEL (1975/1978), durante o chamado regime militar, o que levou a legação diplomática brasileira na ONU a apoiar, por exemplo, neste período, uma RESOLUÇÃO de sua Assembleia Geral (3379, de 10 de novembro de 1975) comparando o SIONISMO (ideologia nacionalista judaica que dá origem a Israel e à LIMPEZA ÉTNICA da Palestina) ao RACISMO e ao APARTHEID. Isto enfureceu, à época, Israel e os EUA, ao ponto de o presidente estadunidense de então, JIMMY CARTER, da noite para o dia, “descobrir” (que) e passar a acusar o Brasil de ofensas aos DIREITO HUMANOS. Os EUA (e Israel) deram, digamos, o troco.

A própria instalação de uma REPRESENTAÇÃO DIPLOMÁTICA no Brasil, na forma de ESCRITÓRIO DE REPRESENTAÇÃO da OLP, se dá em 1979, início do mandato do General JOÃO BATISTA FIGUEIREDO. Logo, a relação amistosa do Brasil com a Palestina vem de décadas antes e se APROFUNDA, por paradoxal que para alguns possa parecer (nossos militaras eram alinhados, geopoliticamente, com a GUERRA FRIA e aos EUA…), no período último de governos militares. Isto, por si só, torna risível qualquer infantilização do tema, tal qual posto, de que é durante o período PETISTA que o Brasil abre suas relações diplomáticas à Palestina.

E é bom que se diga que as relações do Brasil para com a Palestina mantiveram-se estáveis nos governos de José SARNEY e, depois, de Fernando COLLOR, de ITAMAR Franco e, posteriormente, de Fernando Henrique Cardoso. Mesmo agora, malgrado incompreensões iniciais do ex-ministro de RELAÇÕES EXTERIORES de Michel Temer, o senador José SERRA, os fundamentos basilares da diplomacia brasileira para com a QUESTÃO PALESTINA mantiveram-se inalterados, o que segue sob o ministro ALOYSIO NUNES, que, diga-se, é profundo conhecedor da temática e adota ações sempre muito equilibradas quando trata do tema e das questões relativas à Palestina e ao Oriente Médio como um todo. Mais uma vez se vê que a relação que se faz com o PT é apenas sofisma, ou irrelevância ideológica, panfletária, politicagem da mais barata, rasa e pedestre.

Ainda no que respeita ao período em que o PT e seus aliados ocuparam a Presidência da República, o máximo que se pode dizer é que o RECONHECIMENTO, pelo Brasil, do ESTADO DA PALESTINA, se deu neste período, ao final do segundo mandato do presidente LULA. Mas aí é preciso circunstanciar muito honestamente a situação, posto que foi, também, período histórico no qual se deu amplo reconhecimento da Palestina como ESTADO em todo o mundo, em parte em resposta positiva à ofensiva política e diplomática global do Governo Palestino e da OLP com vistas a este reconhecimento. E esta campanha política e diplomática palestina foi tão acertada e bem-sucedida que culminou, em 2012, com o RECONHECIMENTO da Palestina como ESTADO pela ONU. Ou seja: O Brasil apenas se antecipou em 2 anos a este reconhecimento formal internacional, já que, por sua tradição de acompanhar a ONU em suas resoluções, nosso país automaticamente reconheceria a Palestina como Estado em seguida ao reconhecimento pelas Nações Unidas, tal qual fez a maior parte da COMUNIDADE INTERNACIONAL. Ainda, pode-se afirmar, o RECONHECIMENTO nada mais foi do que uma evolução natural da posição do Brasil frente à Questão Palestina pelo menos de 1979 em diante, ou até mesmo a contar de 1975, quando nossa diplomacia na ONU se alinha com a condenação ao SIONISMO como uma forma de RACISMO e APARTHEID.

Frente a tudo isso, soa infame, senão demencial, afirmar que o Brasil, ou o Itamaraty especificamente, receba ordens a partir da Embaixada da Palestina, tal qual a autoproclamada pastora afirma. É uma ilação jamais afirmada em qualquer época ou em qualquer canto do mundo. Chega a doer os tímpanos ouvir isso. O Brasil é um país soberano, que conta com um dos melhores corpos diplomáticos do mundo, altamente profissionalizado e muito sintonizado com os mais caros interesses nacionais brasileiros. Nossa diplomacia jamais se submeteria a ordens estrangeiras, menos ainda palestinas, que, ademais, sequer está em condições de o fazer, e por razões bovinamente óbvias.

Israel promove a islamofobia no Brasil


Por fim, há, aí, um nítido intuito de promover, no BRASIL, a ISLAMOFOBIA, chaga mundial instigada, organizada e insuflada pelos EUA e seus aliados, ISRAEL à frente, inclusive utilizando hipocritamente o CRISTIANISMO para este macabro propósito. Em recente e excepcional ARTIGO, de autoria do brilhante muçulmano Hajj Mangolin, há argumentos fartos que derrubam toda esta MITOLOGIA ISLAMOFÓBICA, no Brasil patrocinada pelos apoiadores de Israel, inclusive pelos FALSOS CRISTÃOS que bebem quase que exclusivamente do que conhecemos como VELHO TESTAMENTO e que, ao fim e ao cabo, o que de fato fazem estes MERCENÁRIOS DA FÉ, donos de CNPJs de CRISTO, é mercantilizar o verdadeiro CRISTIANISMO, inclusive o JUDAIZANDO sob o prior viés, que é o SIONISTA, ideologia que destrói também o PRÓPRIO JUDAÍSMO.

Como argumento final (mas não do debate) frente à ISLAMOFOBIA, que se traduz, também, em ARABOFOBIA e PALESTINOFOBIA, perguntamos: pode o CRISTIANISMO ser dado por credo repugnante, a ser recusado e criminalizado, apenas porque alguns, no curso da história, dele se instrumentalizaram para seus repugnantes e macabros propósitos? Ou, ainda: as centenas de milhões de CRISTÃOS devem ser criminalizados pelos crimes de homens e/ou governos/estados, cometidos em seus nomes e de sua fé? Evidentemente que não.

Para que tenhamos ideia das dimensões do que isto significa, basta que revisitemos a história, em poucos exemplos, para efeitos comparativos. HITLER e MUSSOLINI, acusados de inomináveis crimes, eram “CRISTÃOS” ou, por acaso, MUÇULMANOS? E os dirigentes do APARTHEID na África do Sul, que se serviam, para sustentar seu regime de segregação racial, da TEOLOGIA DO APARTHEID (desenvolvimento em separado, todo baseado em passagens do VELHO TESTAMENTO), não eram, também, “CRISTÃOS”? E a ESCRAVIDÃO, que fez, durante séculos, escravos perto de 150 milhões de homens e mulheres de cor negra, não foi obra de BRANCOS da EUROPA “CIVILIZADA” e dita “CRISTÔ e, mais ainda, mãe do “OCIDENTE”, ou da CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL? E o GENOCÍDIO das populações originárias das Américas, por nós designadas como INDÍGENAS, não foi feita sob a justificativa do “CRISTIANISMO” (tanto eles quanto os negros não teriam almas, diziam, razão pela qual não seriam, também, HUMANOS, o que permitiria suas escravizações e tudo o mais que de desumano contra eles se praticou pelas mãos destes “CRISTÃOS”)? As 1ª e 2ª GUERRAS MUNDIAIS foram promovidas por MUÇULMANOS ou em solo muçulmano, ou bem foram obras de “CRISTÃOS” da Europa e travadas em solo europeu (embora estendidas para outras partes do mundo em seguida, pelos próprios europeus), levando a um banho de sangue que ceifou pelo menos 100 MILHÕES de vidas humanas inocentes? E a aludida MATANÇA DE JUDEUS, por acaso há algum muçulmano ou árabe nela implicado? Ou bem se tratou de um CRIME de EUROPEUS não judeus (“CRISTÃOS”) contra outros EUROPEUS de outra fé, a JUDAICA? E as BOMBAS ATÔMICAS lançadas sobre o Japão já vencido e sob iminente rendição, únicas na história, não foram obra de “CRISTÃOS”, com alguns JUDEUS no meio (Einstein, por exemplo, que chegou a advogar que fossem arremessadas sobre a Alemanha já vencida)? Todos os inomináveis e ignominiosos crimes COLONIAIS em todo o mundo, que, estima-se, levaram a muitas DEZENAS DE MILHÕES DE MORTES, foram obra de MUÇULMANOS ou de “CRISTÃOS”? E a guerra química (NAPALM) e milhões de toneladas de bombas lançadas sobre o VIETNAM e sobre a CORÉIA, que mataram entre 6 MILHÕES e 8 MILHÕES de inocentes a depender da fonte, foram obra de MUÇULMANOS ou dos “CRISTÃOS”, notadamente daqueles no comando dos EUA, que se acreditam com mandato divino para ditar o bem e o mal ao mundo?

Por fim, qual é o EXÉRCITO MUÇULMANO que cerca Paris, ou Londres, ou Washington? Não seriam as capitais árabes e MUÇULMANAS, bem como seus países inteiros, a viver cerco e invasões/ocupações de forças “CRISTÃS”? Há BASES SÍRIAS no Alasca, por exemplo? Por que as forças armadas dos EUA estão em todo o Oriente Médio e em quase todo o MUNDO MUÇULMANO? Isto é importante de destacar para sabermos QUEM REAGE A QUEM e, claro, QUEM INVADE QUEM ou, ainda, QUEM COMETE TERROR CONTRA QUEM, dado importante e sem o qual não há como debater o que de fato precisa ser honestamente debatido. Até mesmo porque até os fetos, ainda nos ventres, sabem que todo o terrorismo ora em voga só despertou, muito misteriosamente, após as intervenções dos EUA nos países por ele (terrorismo) hoje assolados. Haveria apenas coincidências nisto, ou estamos falando de razão mesma da (e para) destas mesmas intervenções? As respostas a estas perguntas também estão ao alcance dos fetos!

Em que pese todos os exemplos expostos, o CRISTIANISMO, como fé, nada tem que ver com todos estes crimes ou com os criminosos que os cometeram e ainda os cometem, nem os CRISTÃOS devem ser criminalizados por estes e outros crimes cometidos em seus nomes para benefício de ínfimas elites que nada têm de cristãs. Igualmente devemos entender quanto ao ISLAMISMO e aos muçulmanos. Um crime em qualquer esquina no Brasil é cometido por um criminoso pura e simplesmente, jamais por SUA RELIGIÃO ou por sua CONDIÇÃO RELIGIOSA. Pensar diferente nos conduziria à barbárie de perguntar, antes de tudo, e a todo criminoso, seu CREDO RELIGIOSO. E nós não chegaremos a este ponto, ainda que alguns, seja a partir da frente da Embaixada da Palestina, seja de dentro de alguma “igreja”, nos queiram arrastar para esse precipício. Não sãos as religiões as responsáveis pelos crimes que assolam a humanidade, mas uma ínfima elite que delas se instrumentaliza para assassinar as multidões de fiéis, não raro jogadas umas contra as outras para a realização destes macabros desígnios.




*Ualid Rabah é diretor de Relações Institucionais da FEPAL – Federação Árabe Palestina no Brasil


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CONHEÇA A NOVA SEDE DA EMBAIXADA DA PALESTINA NO BRASIL

Um pouco antes da inauguração da nova sede da embaixada (fev/2016) a TV Brasil produziu um vídeo em outubro de 2015, na fase de finalização das obras, mostrando aspectos culturais, arquitetônicos, históricos e diplomáticos da sede da embaixada da Palestina no Brasil (Brasília). O vídeo traz uma entrevista com o embaixador palestino Ibrahim Alzeben:

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Importante ressaltar que a Palestina tem representação oficial no Brasil desde 1979, na época escritório da OLP – Organização para a Libertação da Palestina, reconhecida pela ONU, pela Liga das Nações Árabes e por diversos organismos internacionais, como a única e legítima representante do povo palestina.

A Embaixada possui hoje status diplomático normal como de outros países que tem suas embaixadas instaladas em Brasília.

Recomendo a todos os amigos e amigas do povo palestino que visitem a embaixada da Palestina em Brasília contribuindo para o fortalecimento dos laços de amizade e solidariedade entre Brasil e Palestina.

Viva a solidariedade do Brasil com o povo palestino e o apoio aos direitos nacionais inalienáveis do povo palestino ao retorno e autodeterminação como determinam as resoluções da Organização das Nações Unidas- ONU.

Viva a amizade e solidariedade do Brasil com a Palestina!

Emir Mourad
Editor do Blog 



quinta-feira, 29 de junho de 2017

Israel nunca foi obrigado a respeitar as leis

por Leneide Duarte-Plon


A historiadora Sandrine Mansour demole a versão sionista que pretende justificar a tragédia dos palestinos

 
Sionistas cometeram o massacre de Kafr Kassem na Palestina
Imagens como esta, do massacre de Kafr Qasim, contribuíram para conter a violência israelense. Mas nem tanto

De Paris


Para marcar os 50 anos da Guerra dos Seis Dias, de junho de 1967, quando Israel ocupou Gaza, o Golan, a Cisjordânia e Jerusalém Leste (até hoje apenas Gaza foi desocupada), a ONG francesa Attac promoveu, em Paris, juntamente com a Association France-Palestine Solidarité, a projeção do filme La Terre Parle Arabe, de Maryse Gargour.

Depois do filme, o público debateu com a doutora em História e pesquisadora franco-palestina Sandrine Mansour, autora, entre outros, do livro L’Histoire Occultée des Palestiniens, 1947-1953. Assim como o filme, ela desconstruiu os mitos fundadores do Estado de Israel, entre eles “a partida voluntária dos palestinos para o exílio, influenciados pelos países árabes”.

“Desde o fim do século XIX, o Comitê do Movimento Sionista encarregado de solucionar a expulsão dos palestinos chamava de transferência essa futura expulsão”, explica Mansour em entrevista exclusiva a CartaCapital.

A Nakba, ou Catástrofe, como os palestinos denominam a expulsão em diversas ondas, estendeu-se até a década de 1950. A primeira foi a de 1945, depois vieram mais três. A de março de 1948 expulsou mais de 300 mil palestinos. Depois, até os anos 1950, de 150 mil a 200 mil. Centenas de aldeias palestinas sumiram literalmente do mapa da antiga Palestina.

A historiadora explica que hoje, na França, os sionistas tentam assimilar qualquer crítica a Israel como antissemitismo, inclusive quando franceses do movimento internacional Boycott Désinvestissement Sanctions (BDS) conclamam ao boicote dos produtos israelenses para lutar contra o apartheid dos palestinos. Eles podem ser punidos com multa e pena de prisão.

CartaCapital: Seu livro L’Histoire Occultée des Palestiniens, 1947-1953 lança novas luzes sobre a história dos palestinos. Que aspecto dessa história foi ocultado e por quem? Quais os mitos sionistas sobre a Palestina e seu povo?

Sandrine e seu livro A História Ocultada dos Palestinos
Sandrine e seu livro A História Ocultada dos Palestinos

 (Foto: Franck Tomps)
Sandrine Mansour: Como muitos conflitos no mundo, a história escrita e disseminada foi a do vencedor, isto é, de Israel. Por outro lado, por causa da responsabilidade europeia no genocídio dos judeus na Europa, esta contribuiu nessa ocultação. Até porque a Europa teve, e continua a ter sob outras formas, um espírito colonial como o sionismo, que é uma ideologia nacional e colonial.

Sandrine e seu livro A História Ocultada dos PalestinosPor essas razões, a narrativa da história palestina foi ocultada durante muitos anos. Somente nos anos 1980 vimos surgir os livros dos “novos historiadores” israelenses que trabalharam com arquivos do Estado de Israel e puderam confirmar o que diziam os palestinos e trazer detalhes precisos (modo operacional, unidades sionistas ativas etc.).

Por outro lado, como em todos os traumatismos, os palestinos nomearam e dataram o mais significativo deles, a expulsão do maior número de palestinos de suas terras. É a Nakba, a Catástrofe. Ora, se a palavra é adequada, a data de 15 de maio de 1948 não é exata. As grandes expulsões começaram realmente no dia seguinte ao voto na ONU de 29 de novembro de 1947, que determinava a Partilha da Palestina. As expulsões prosseguiram por muitos anos, mas pode-se dizer que a Nakba diminuiu de intensidade em 1953, com o Massacre de Qibya.


CC: Por que diminuiu?

SM: Foi o início da generalização da foto de imprensa e a imagem de Israel foi arranhada. Houve diminuição, mas não cessou, pois em 1956 houve outro massacre em Kafr Qasim. Depois, nova expulsão de palestinos em 1967. Em seguida as expulsões continuam, mas de maneira regular, surda, na forma de demolições de casas, prisões, a construção do muro, colonização…

Entre os mitos há o da “terra sem povo para um povo sem terra”, enquanto os sionistas sabiam muito bem que a Palestina tinha uma grande população.

Foi disseminado também o mito de que os países árabes incentivaram os palestinos a partir, quando, na realidade, tratava-se de uma limpeza étnica, como diz o título do livro do historiador israelense Ilan Pappé. E esses mitos são numerosos nesse conflito duradouro.

CC: Em junho de 1967, depois da Guerra dos Seis Dias, Israel ocupou a Cisjordânia, Gaza, o Golan e Jerusalém Leste. Por que essa ocupação pôde continuar até hoje, com exceção de Gaza?

SM: Pela colonização que existe desde o início, pela impunidade total, já que, apesar de diferentes resoluções da ONU condenando a posse do território, Israel nunca foi obrigado a respeitar as leis. Além disso, há uma enorme máquina de propaganda no mundo lembrando a responsabilidade dos europeus durante o genocídio dos judeus, para impedir qualquer crítica à política de expansão de Israel.

O americano Norman Finkelstein chama isso de a “indústria do Holocausto”. E essa indústria de propaganda continua, já que hoje numerosos países se opõem às críticas contra o Estado de Israel, confundindo-as com antissionismo e antissemitismo. A crítica está cada vez mais controlada, o que dá a Israel tempo para prosseguir seu projeto colonial e esmagar todos os direitos dos palestinos.

Illan Pappé
O historiador israelense Ilan Pappé sustenta que o que houve
foi 'uma limpeza étnica' (Foto: Geoffrey Swaine/Rex)
CC: A expulsão dos palestinos é o tema do livro do historiador israelense Ilan Pappé, Le Nettoyage Ethnique de la Palestine. Ele diz que, nos anos 1920, os palestinos representavam entre 80% e 90% da população da Palestina, então sob mandato britânico. Por que os palestinos não podiam ficar nas aldeias que existiam no território atribuído pela ONU ao futuro Estado judeu e como a demografia mudou?

SM: A demografia mudou pela chegada de grande número de judeus vindos da Europa. Ajudados pelo governo britânico e, depois, pelos Estados Unidos, os sionistas queriam se instalar na Palestina e reivindicaram até mesmo outros territórios no momento da partilha do Estado Otomano. Mesmo a Grã-Bretanha tendo limitado a imigração de judeus, esta continuou progressiva de maneira ilegal.
As expulsões dos palestinos permitiram aos judeus tornar-se maioria no território que lhes foi atribuído. Instauraram um sistema de segregação que tornava os palestinos “ausentes”, mesmo que expulsos a apenas 100 metros. Enfim, por uma política repressiva que impedia aos palestinos retornar às suas casas, incentivando ao mesmo tempo até hoje a imigração de judeus para Israel.
Os palestinos já estavam fragilizados depois da repressão da Grande Revolta de 1936, em face de um movimento sionista muito poderoso, armado e financiado.

Norman Finkelstein
Finkelstein denuncia a 'indústria do
Holocausto'  (Foto: Chen Xu/FotoArena)
CC: Como explicar o fato de os sionistas terem criado um Estado judaico e o Estado da Palestina ser ainda, 70 anos depois do Plano de Partilha, uma miragem para o povo palestino?

SM: Aceitando o Plano de Partilha, Israel não quis se contentar com ele. Os textos das discussões internas da Agência Judaica mostram bem que era uma estratégia para obter progressivamente mais pela guerra. A paz teria estancado a anexação de terras. De fato, foram os sionistas que convenceram os britânicos sobre o Plano de Partilha, primeiramente em 1922 e, depois, em 1937.
Para eles, era preciso pôr a mão em uma parte do território, reforçar sua instalação e, assim, prosseguir conquistando mais terras. Em 1948, graças à guerra árabe-israelense, Israel conquista 78% do território, bem mais do que o que lhe fora atribuído pelo Plano de Partilha de 1947.

Em 1967, Israel multiplica por quatro seu território em alguns dias. Depois a colonização tem como objetivo criar um fato consumado para garantir a conquista. O único problema é que hoje eles não podem expulsar como em 1947 ou 1967. Então, isolam os palestinos em três zonas da Cisjordânia e em Gaza.

E teve também a tomada do Golan, sem esquecer as guerras no Líbano e a tomada do Sinai. E fato de a ONU nunca ter conseguido, através de suas resoluções, impor a Israel o respeito ao direito internacional.

CC: Ilan Pappé escreve em seu livro: “Até a ocupação da Palestina pela Grã-Bretanha em 1918, o sionismo foi uma mistura de ideologia nacionalista e de prática colonial”. O sionismo de hoje tem outra imagem?

SM: Penso que não. Ele se tornou high tech (haja vista a força deles na internet), mas o que há é fundamentalmente uma ideologia colonial, racista também quando se vê como os israelenses tratam os judeus imigrados dos países da África Negra. E ele é nacional no sentido em que a religião judaica é a nacionalidade, antes de tudo. O projeto não foi alterado e a política do fato consumado serve a seus interesses.

CC: Israel vangloria-se de ser a “única democracia” no Oriente Médio. O conceito de democracia é adequado a Israel? E por que o país é tão obcecado pela demografia?

SM: Não se trata de uma democracia, mas de uma teocracia na qual a supremacia é dada aos judeus. Os palestinos que vivem em Israel se tornaram israelenses depois de 1948, porém não gozam dos mesmos direitos, ainda que tenham o direito de voto. É um sistema com diversos níveis, um apartheid que recusa essa denominação.

É como se Israel tivesse construído uma fachada “democrática” para agradar aos ocidentais (sim, pode haver artigos muito críticos na imprensa de israel), mas isso convive com um sistema de discriminação no interior de seu território (é proibido ensinar a Nakba nas escolas de Israel) e também nos territórios ocupados, onde os colonos têm todos os direitos (são armados e protegidos pelo Exército de Israel, como em Hebron), enquanto os palestinos não têm.

A demografia é uma ameaça desde o início do projeto sionista, já que o Comitê de Transferência tinha aconselhado que o número de “árabes” (eles procuram ignorar a palavra “palestinos”) não deveria superar 20% no território de Israel. Esse limite ainda em vigor não pode ser ultrapassado e, por isso, o governo impede que famílias separadas entre a Cisjordânia e Israel se reúnam em Israel.

Por isso eles querem deixar poucos palestinos na Zona C (delimitada pelos acordos de Oslo), equivalente a 62% da Cisjordânia, para poder anexar mais sem a população que se encontra amontoada nas zonas A e B, os 38% da Cisjordânia que corresponde a apenas 22% da Palestina histórica. Por isso também estão demolindo as casas palestinas de Jerusalém Leste e colocando colonos na cidade para mudar a demografia.

Um dos slogans dos sionistas entre eles era “mais terras e menos árabes”, título de outro excelente livro do historiador Nur Masalha. Por outro lado, utilizando a palavra árabe em vez de palestino, eles querem que os palestinos, o mundo árabe e os ocidentais admitam que, como os árabes têm vastos territórios, podem acolher os palestinos. Eles negam a especificidade, a origem e a história dos palestinos.

CC: Há uma fratura na sociedade israelense? Penso nos ex-militares da ONG Breaking the Silence, que denuncia a brutalidade da ocupação, e a ONG B’Tselem”, que se apresenta como “um centro israelense de informação para os direitos humanos nos territórios ocupados”.

SM: Essa fratura existe há anos. Ela foi mais forte nos anos 1990, depois da primeira Intifada. Contudo, os organismos israelenses que lutam nesse sentido indicam que o movimento se enfraqueceu depois de 2000, momento em que a “ameaça” iraquiana primeiro, depois iraniana, permitiu serrar fileira na sociedade israelense como vítima potencial.

Por outro lado, a sociedade israelense está em plena crise, econômica sobretudo, o que não facilita o desenvolvimento dessas ONGs. Elas são perseguidas pelas autoridades, há leis e ações judiciárias contra eles. A educação dada nas escolas mantém a ideia de que os palestinos são a causa de todos os males. O cineasta israelense Eyal Sivan mostra essa situação em seu filme Izkor: Ou les esclaves de la mémoire.



 Fonte: Carta Capital


quinta-feira, 8 de junho de 2017

50 anos de ocupação: A Guerra dos Seis Dias de Israel foi baseada em uma mentira


50 anos da ocupação israelense
Soldados israelenses procuram prisioneiros jordanianos durante operação de limpeza em Jerusalém, em 8 de 1967, quando a cidade ficou sob o domínio judeu durante a Guerra dos Seis Dias.


The Intercept_Brasil – Por Mehdi Hasan


50 ANOS ATRÁS, entre 5 e 10 de junho de 1967, Israel invadiu e ocupou Jerusalém Oriental, a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e as Colinas de Golã. A Guerra dos Seis Dias, como ela ficaria conhecida depois, viu o “Davi” israelense impor uma humilhante derrota ao “Golias” árabe – talvez personificado no presidente egípcio Gamal Abdel Nasser.

“A existência do estado israelense estava por um fio”, afirmou o primeiro-ministro do país, Levi Eshkol, dois dias após o fim da guerra, “mas as esperanças dos líderes árabes de aniquilar Israel foram destruídas”. O argumento israelense é que um genocídio, um segundo Holocausto havia sido evitado.

No entanto, há problema com este argumento: ele é uma completa ficção, uma mentira, um mito, uma fantasia egoísta construída após o evento para justificar uma guerra agressiva e expansionista. Não sou eu quem diz isso: “A tese segundo a qual o perigo de genocídio pendia sobre nós em junho de 1967 e, segundo a qual, Israel estava lutando por sua existência, não passa de um blefe nascido e alimentado após a guerra.” As palavras são do general Matituahu Peled, chefe do comando logístico na Guerra dos Seis Dias e um dos 12 membros do Estado-Maior de Israel, em março de 1972.

Um ano antes, Mordechai Bentov, membro do governo durante a guerra e uma das 37 pessoas a assinar a Declaração de Independência de Israel, fez um reconhecimento semelhante. “Toda essa história sobre a ameaça do extermínio foi totalmente planejada, e depois elaborada, a posteriori, para justificar a anexação de novos territórios árabes”, afirmou Bentov em abril de 1971.

Mesmo o primeiro-ministro israelense Menachem Begin, ex-terrorista e queridinho da extrema direita israelense, admitiu, em um discurso em agosto de 1982, que “em junho de 1967, nós fizemos uma escolha. As movimentações do exército egípcio ao abordar a península do Sinai não eram prova de que Nasser realmente estava a ponto de nos atacar, precisamos ser honestos. Nós decidimos atacá-lo. ”

As consequências desse ataque são sentidas no Oriente Médio até os dias atuais. Poucos conflitos modernos tiveram impacto tão profundo e duradouro quanto a Guerra dos Seis Dias. Como observa o acadêmico e ativista norte-americano Thomas Reifer, a Guerra dos Seis Dias parecia o “golpe de morte no nacionalismo pan-árabe, o surgimento do Islã político, de um nacionalismo palestino independente” e “a emergência de Israel como um ‘ativo’ estratégico dos Estados Unidos no coração do Oriente Médio, com os EUA enviando bilhões de dólares a Israel, numa parceria sem precedentes na história mundial”.

Acima de tudo, a guerra, definida pelo London Daily Telegraph, em 1967, como “um triunfo da civilização”, forçou 300 mil palestinos a abandonar suas casas e inaugurou uma brutal ocupação militar para os milhões de palestinos que lá ficaram.

A guerra pode ter durado apenas seis dias, mas a ocupação que se seguiu ao conflito está entrando em sua sexta década. É a mais longa ocupação militar no planeta. Os defensores de Israel negam que isso seja uma ocupação: dizem que os Territórios Ocupados estão “em disputa” – uma afirmação mentirosa, negada até mesmo pela Suprema Corte de Israel, que decidiu, em 2005, que a Cisjordânia é “posse do Estado de Israel em uma ocupação beligerante”.

Cinquenta longos anos de ocupação; de desapropriação e limpeza étnica; de demolições de casas e toques de recolher noturnos; de postos de controle, muros e pedidos de licenças.


Cinquenta anos de discriminação racial e preconceito étnico; de um sistema judicial desigual e de dois níveis – um para palestinos e outro para israelenses; de tribunais militares e “detenção administrativa“.

Cinquenta anos de humilhação e submissão; de mulheres palestinas grávidas que dão à luz nos postos de controle; dos pacientes de câncer palestinos que não têm acesso à radioterapia; de jogadores de futebol palestinos impedidos de jogar.

Cinquenta anos de negociações inúteis e planos de paz fracassados: Allon, Rogers, Fahd, Fez, Reagan, Madrid, Oslo, Wye River, Camp David, Taba, Red Sea, Annapolis. O que, de fato, essas negociações conseguiram para os palestinos em territórios ocupados? Nada, além de assentamentos, assentamentos e mais assentamentos israelenses?

Veja só: em 1992, um ano antes do início do processo de paz de Oslo, os assentamentos na Cisjordânia cobriam 77 quilômetros e abrigavam 248 mil colonos israelenses. Até 2016, esses assentamentos aumentaram para 197 quilômetros e o número de colonos que viviam neles, mais do que triplicou: eram 763 mil pessoas.

Esses assentamentos tornaram praticamente impossível a famosa “solução de dois estados”. A Cisjordânia ocupada foi retalhada em uma série de bantustões, separados entre si e do mundo. Os colonos não vão sair de lá tão cedo. Eles são os “fatos” sobre os quais Israel argumenta. Ignorá-los é ignorar o maior obstáculo para acabar com a ocupação. “É como você e eu estivéssemos negociando sobre um pedaço de pizza”, explicou o advogado palestino-americano e ex-conselheiro da OLP, Michael Tarazi, em 2004. “Quanto da pizza vou receber? E quanto você vai obter? Mas enquanto estamos negociando, você continua a comer a pizza”.

Moshe Dayan

Gen. Moshe Dayan fala a repórteres em Tel Aviv durante sua primeira coletiva, em 3 de junho de 1967, depois de assumir o posto de Ministro da Defesa.
 
Foto: AP


Não apenas a guerra de 1967 foi construída sobre uma mentira; foi assim também com a ocupação que veio depois dela. A ocupação não foi pensada como algo temporário, nem que os palestinos recuperariam suas terras depois. Se Israel tivesse planos para se retirar dos Territórios Ocupados, como sugerem alguns de seus apoiadores, então, por que o primeiro assentamento na Cisjordânia, Kfar Etzion, estabelecido menos de quatro meses após a Guerra dos Seis Dias, desafiando o “conselho ultrassecreto” do conselheiro jurídico do Ministério das Relações Exteriores israelense de que o “assentamento civil” nos Territórios violaria “as disposições explícitas na Quarta Convenção de Genebra”?

Por que o Estado judeu passou as últimas cinco décadas usando um processo de paz fantoche para engolir mais terras palestinas e criar mais assentamentos ilegais? A verdade é que o Estado judeu, desde o início, “usou as negociações como uma cortina de fumaça para ampliar seu projeto colonial”, usando emprestada a expressão do militante e ativista palestino preso Marwan Barghouti. Cinquenta anos depois, é hora das lideranças palestinas e a comunidade internacional pararem de fingir o contrário.

O lendário general israelense e ministro da Defesa, Moshe Dayan, um dos arquitetos da vitória de Israel em 1967 – e defensor ferrenho de que o estado judeu deveria manter os territórios que havia conquistado, é quem melhor resume a atitude cínica dos governos israelenses (sejam de esquerda ou de direita) nas últimas cinco décadas. “As únicas negociações de paz”, declarou Dayan, quando questionado sobre a possibilidade de um acordo de paz com os palestinos, em novembro de 1970, “são aqueles nas quais consolidamos os territórios e, de tempos em tempos, vamos de novo para a guerra.”



Tradução: Charles Nisz

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