segunda-feira, 27 de março de 2017

Palestina: o Dia da Terra


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Comemoração do Dia da Terra da Palestina





Palestinos: O Dia da Terra

Publicado na Folha de S. Paulo em 29.03.1985.

Por Maurício Tragtenberg*

 Amanhã, dia 30, o povo palestino comemora o “Dia da Terra”, que surgiu como lembrança histórica da resistência que em 1976, os vários palestinos da Galiléia (território ocupado em 1948) manifestaram contra a invasão e ocupação de suas terras pelo Estado em Israel.

 Como acontece nessas ocasiões houve repressão e violência por parte das autoridades militares de ocupação, onde foram indiscriminadamente atingidos homens, mulheres, velhos e crianças. É impossível destruir um povo que por mais de trinta séculos construiu sua cultura, suas obras materiais e espirituais.

 Enquadrada no plano da destruição da cultura e identidade do povo palestino estão as universidades palestinas construídas nas ‘zonas ocupadas’ pelo Estado em Israel.

  Através da Ordenança Militar 854, uma das 1.080 ordenações militares que modificam a legislação jordaniana, em vigor na Cisjordânia, o Estado detém em suas mãos a permissão de funcionamento de qualquer instituição educacional, que implica no controle pelas autoridades do pessoal acadêmico, dos programas e manuais de ensino.

  Uma das iniciativas que afetou gravemente o funcionamento das universidades palestinas nas ‘zonas ocupadas’ foi que a partir de 1983 os professores estrangeiros –na realidade palestinos com passaportes de diversas nacionalidades estrangeiras – tenham que assinar uma declaração, segundo a qual, comprometem-se a não dar apoio algum à OLP nem a qualquer organização terrorista. Ante a recusa unânime do corpo de professores em assinar tal ignominioso papel, a repressão foi terrível.

  A Universidade d’An-Najah teve dezoito professores expulsos, enquanto outros três que estavam no Exterior foram proibidos de ingressar na Cisjordânia. Bir-Zeit perdeu cinco e a Universidade de Bethléem perdeu doze de seus professores.

  O fechamento temporário de universidades é outra medida que as “autoridades” de ocupação lançam mão; entre 1981/2 a Universidade de Bir-Zeit ficou fechada sete meses. A Universidade de An-Najah em 1982/3 ficou fechada durante três meses consecutivos, as Universidades de Bethléem e Hebron conheceram igual destino.

  Com o fim de vencer a resistência cultural palestina, a detenção de estudantes pelos motivos mais fúteis é coisa comum em todas as universidades da Cisjordânia. Os detidos são confinados na prisão de Fara’a, no Vale do Jordão. Segundo a advogada Lea Tsemel, o detido, conforme a “lei de urgência” (do período do Mandato Britânico) pode ficar incomunicável durante dezoito dias, sem culpabilidade definida nem visita de advogado. Por trazer consigo um panfleto ilegal o detido pode assim ficar durante 48 dias.

  O “tratamento” é o mais degradante possível: duchas frias, golpes, insultos.

  O presidente do Conselho de Estudantes de An-Najah, condenado a seis anos de prisão em 1974, não só afirmou ter sido torturado como também afirmou: “todos os prisioneiros palestinos são torturados.”

  Porém, a Universidade de Bir-Zeit é um foco de resistência cultural palestina; organiza atividades culturais fundada na cultura popular palestina. Possui uma biblioteca significativa aberta à consulta pública.

  Os dados a respeito da situação de resistência cultural palestina acima descrita nos foram fornecidos por Sônia Dayan-Herzbrun e Paul Kessler, que testemunham: “O fato de sermos judeus não afeta nossa objetividade em relação ao tema tratado. A consciência de nossa identidade judaica e das responsabilidades inerentes a ela nos levaram a participar do Centro de Cooperação com a Universidade Bir-Zeit.” (Le Monde Diplomatique, julho de 1984)

É o que também pensamos. O “Dia da Terra” é a reafirmação de um povo que pode ser expropriado, espezinhado, torturado, caluniado;vencido nunca.



* Maurício Tragtenberg, 54, professor do Departamento de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas SP) e da PUC-SP, escreveu, entre outros livros, “Administração, Poder e Ideologia.


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sábado, 11 de março de 2017

Apresentador israelense denuncia apartheid de Israel na Palestina

Assaf Harel criticou os seus conterrâneos por ignorarem a ocupação israelita em território palestino, num discurso emocionante.


Assef Harel faz dura critica a ocupação da Palestina



Assaf Harel não te deve ser um nome familiar. Trata-se de um humorista israelense de 41 anos, conhecido pelas declarações polêmicas que faz sobre o seu próprio país. Desta vez foi mais longe e tornou-se viral pelos melhores motivos.

Foi no monólogo final do último episódio do seu talkshow “Good Night With Assaf Harel” que o israelense denunciou a forma como Israel tem tratado a Palestina.



Pediu aos israelenses que abram os olhos e se apercebam que o que se passa entre os dois países é um verdadeiro Apartheid. O discurso é claramente dirigido aos seus conterrâneos, que critica por ignorarem a ocupação israelense em território palestino: “Como estamos do lado bom, nunca nos preocupamos”, “Nós temos abusado dos palestinos diariamente durante anos, temos-lhes negado direitos básicos”, “Nós estamos bem. Mas há milhões de pessoas por quem somos responsáveis que vivem num estado horrível.”

Harel atacou alguns dos assuntos mais tabu em Israel e o vídeo da sua intervenção tem sido muito partilhado nas redes sociais e chega numa momento político crucial para a região.

Depois de anos de um relacionamento frio entre Washington e Israel, quando tomou posse Donald Trump declarou que está do lado do primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu. Passado pouco tempo recuou. Os confusos compromissos diplomáticos entre os dois países já afetaram assuntos como a mudança da embaixada dos Estados Unidos de Telavive para Jerusalém, a construção de novos colonatos judaicos ou a polémica “solução de dois estados” para resolver o conflito israelo-palestino.

No meio de tudo isto, não fica claro em que fase está o processo de paz.

Os últimos desenvolvimentos com os Estados Unidos têm encorajado a direita radical israelense a achar que assistimos a uma “nova era”.

Importa dizer que “Good Night With Assaf Harel” era um dos programas mais controversos emitidos pela televisão israelense e que não vai ser renovado para mais uma temporada na sequência das fracas audiências – apesar de ter sido altamente seguido nas redes sociais.

O programa chegou a ser multado por causa de um episódio em que Harel ridicularizou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

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sábado, 4 de março de 2017

Em novo livro, Judith Butler faz crítica judaica ao sionismo


Novo livro de Judith Blair critica sionismo





RIO - Mais conhecida no Brasil por seus estudos sobre gênero, Judith Butler reflete sobre sionismo e identidade em seu último livro publicado no Brasil, “Caminhos divergentes: judaicidade e crítica do sionismo”. Na obra, a filósofa pós-estruturalista americana, que causou polêmica ao defender posições pró-Palestina e apoiar uma campanha internacional de boicote cultural, econômico e político a Israel, argumenta que é possível, como ela vem fazendo, criticar as posições do país no conflito Israel-Palestina, e, ao mesmo tempo, reafirmar a sua própria cultura judaica.

Nos princípios éticos judaicos que fizeram a sua formação, escreve ela, tenta encontrar ferramentas para “contestar a subjugação colonial que o sionismo tem exercido sobre o povo palestino”. Para isso, apoia-se em pensadores judeus e elabora as condições para uma convivência possível entre israelenses e palestinos.

Em entrevista ao GLOBO por e-mail, Judith fala sobre os conflitos provocados por suas posições contra as políticas recentes do Estado de Israel, sobre a sobrevivência do multiculturalismo após a eleição de Trump e as obrigações morais da coabitação dos povos.

Por que é importante fazer uma crítica judaica ao Estado de Israel? Que valores judaicos podem ser usados na crítica às políticas israelenses?

É importante entender que há muitas visões de Israel entre os judeus. O povo judeu é internamente complexo. Eles vêm de muitos lugares do mundo e nem sempre se veem representados pelo Estado de Israel. Na verdade, se pensarmos nos valores judeus de justiça, igualdade e hospitalidade, vemos que o Estado de Israel é contra princípios chaves da Ética Judaica.

Embora reafirme sua formação judaica, a senhora também defende a necessidade de ir além do judaísmo. Por quê?

Eu me oponho à ocupação, da mesma forma que muitas pessoas se opõem à ocupação. A maioria das leis internacionais condena a ocupação, então minha oposição não é muito diferente da de um não judeu que se opõe à ocupação como uma violência dos direitos humanos. Mas porque se diz frequentemente que aqueles que se opõem ao Estado de Israel se opõem ao povo judeu, é importante saber que o povo judeu também se opõe ao Estado de Israel em muitos aspectos, clamando por direitos humanos internacionais e direitos democráticos para todas as pessoas, incluindo os palestinos.

Em 2014, sua palestra sobre Kafka no Museu Judaico de Nova York foi cancelada após reclamações sobre seu envolvimento com o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções contra Israel). Como reagiu à notícia?

Na verdade, eu até tenho tido sorte, já que minhas participações em eventos são raramente canceladas. Mas está havendo, sim, um esforço para criminalizar a posição política do BDS. Boicotes são reconhecidos como instrumentos legais de expressão de pontos de vista políticos, então é uma perspectiva horrível que se diga às pessoas que assumem este ponto de vista de que o ponto de vista delas sequer pode ser ouvido. Sabemos que muitas pessoas tiveram suas participações em eventos canceladas e que há uma ampla campanha para silenciar quem tem opiniões críticas a Israel.

No livro, a senhora diz que é importante pensar em uma solução de Estado único para o conflito Israel-Palestina, mesmo que muitos a considerem impraticável...

Na história do mundo, certamente muitas ideias foram vistas como impraticáveis: a abolição da escravidão, os direitos iguais para mulheres e minorias, o fim da guerra... E, ainda assim, aqueles que continuam a luta por liberdade, igualdade e não violência tiveram que persistir. Se seguíssemos apenas opções práticas, perderíamos nossos princípios e nossa esperança.

A senhora acredita que, se não pensarmos na coabitação, nosso mundo empobrecerá radicalmente. Mas o que significa viver com o outro? Quais são nossas obrigações morais quando coabitamos com aqueles que não escolhemos?

No fim das guerras ou no fim legal do apartheid, sociedades são confrontadas com o difícil problema de viver com aqueles que foram seus inimigos. É uma tarefa difícil viver junto com o ódio duradouro, a raiva, onde não há amor. Mas se todos afirmarem a obrigação de viverem juntos, então eles têm essa obrigação em comum, e essa obrigação passa a representar o presente e o futuro da vida compartilhada.

Como vê o futuro do pluralismo na era Trump?

O movimento emergente de resistência inclui populações multiétnicas e multirraciais que estão se unindo para combater o racismo, a xenofobia e a misoginia. Este movimento de resistência representa o futuro da pluralidade neste momento. Minha crença é que, com o tempo, ele vai ganhar.


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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Quando Duvivier, Bolsonaro, Wyllis e Crivella estão no mesmo campo

A normalização de um crime: quando Duvivier, Bolsonaro, Wyllis e Crivella estão no mesmo campo


Enquanto Israel coloniza a Palestina, cresce o apoio ao país entre personalidades e políticos brasileiros à esquerda e à direita


Por Arturo Hartmann e Bruno Huberman - Revista Fórum


Duviver apoia o estado terrorista de Israel

Na semana passada, o parlamento israelense votou pela legalização do confisco de propriedades privadas palestinas por parte do Estado de Israel. Essa medida acarretou a regularização de 53 assentamentos judeus quehaviam sido construídos em terras particulares na Cisjordânia sem autorizaçãoprévia do governo, o que era considerado irregular pela legislação israelense até a madrugada da quarta-feira, 8.

A medida poderia ser vista como mais um passo para o isolamento de Israel na comunidade internacional. Praticamente toda a comunidade internacional condena a colonização israelense dos Territórios Palestinos Ocupados (TPO) desde 1967 — ilegal pela lei internacional, com base na Resolução 242 do Conselho de Segurança e na IV Convenção de Genebra. Israel, entretanto, tem historicamente empreendido um bem-sucedido processo de propaganda institucional e limpeza da sua imagem entre importantes setores de diferentes países e instituições internacionais, forjando um apoio às suas políticas apesar das críticas que pipocam de todos os lados. O humorista brasileiro Gregório Duvivier é um importante exemplo do sucesso deste lobby internacional.

No início de janeiro, o ator viajou a Israel à convite da Universidade Hebraica de Jerusalém, uma instituição que tem em seus pilares violações contra os palestinos. A universidade fica a pouco metros do bairro de Silwan, principal local de judaização em andamento na cidade, onde assentamentos judeus são erguidos ao redor de casas palestinas: já são 2.800 colonos ilegais vivendo entre cerca de 100 mil palestinos, segundo a ONG israelense Btselem. O crescimento desses colonos, entre 2009 e 2016, foi de 70%. Nesse período, 68 famílias palestinas foram expulsas de Silwan, Sheik Jarrah e do quarteirão muçulmano da Cidade Velha. Algo que pode passar batido diante do olhar de um turista de primeira viagem.

O convite a Duvivier foi para o seminário “Brasil, Israel e Palestina: política, religião e a busca pela paz”, organizado pelo professor James Green, brasilianista da Brown University, e Michel Gherman, docente da Hebraica e coordenador do Centro de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A viagem do humorista se insere em uma agenda específica, que a acadêmica Berenice Bento chamou em um recente artigo de “redwashing”: um tipo de discurso de “esquerda” que serve para limpar a imagem de Israel, posicionando o país como a única democracia liberal do Oriente Médio, respeitadora dos direitos humanos, como a igualdade para mulheres e homossexuais. Tal como Bento descreve, aqueles que praticam o “redwashing” terminam não apenas sendo cúmplices da expulsão e segregação dos palestinos, como são parte estruturante do projeto sionista, que busca estabelecer uma ampla maioria judaica sobre a terra.

Duvivier não é o primeiro garoto propaganda do campo progressista israelense no Brasil. Um ano antes, em janeiro de 2016, o deputado federal Jean Wyllis (Psol), defensor dos direitos da comunidade LGBT, da descriminalização da maconha e de outras pautas ligadas ao campo progressista, provocou barulho nas redes sociais e entre a esquerda brasileira — inclusive dentro do seu partido — por fazer o mesmo trajeto. Estes são apenas dois exemplos de um antigo e bem sucedido esforço de propaganda e lobby israelense, conhecida como hasbará (“explicação”, em hebraico).


Wyllys apoia o sionismo que comete crimes de guerra na Palestina


UM HUMORISTA NA PALESTINA


Duvivier é famoso por vídeos de humor no canal do Youtube “Porta dos Fundos” que colocam o dedo na ferida, além de colunas no jornal Folha de S. Paulo em que defende pautas progressistas e ataca políticos — muitas vezes sendo acusado de extremismo por seus detratores. O humorista, entretanto, adotou uma abordagem mais low profile durante visita ao Oriente Médio, relativizando crimes e consensos internacionais em torno da questão palestina.

Segundo Guilherme Cohen, candidato a vereador do Rio de Janeiro pelo Psol em 2016 e cicerone de Wyllis e Duvivier na Terra Santa, o humorista teria rapidamente compreendido a complexidade da questão Palestina/Israel e fugido de binarismo em seu discurso na Universidade Hebraica. “O grande problema pra mim é quando você não vê pessoas e passa a ver somente bandeiras ou religiões. Quando você começa a enxergar pessoas, você entende que não é apenas um país, são 7 milhões de países, pois cada cidadão têm sua própria narrativa”, disse Duvivier na palestra.

As postagens de Duvivier em sua conta no Instagram são ainda mais reveladoras da sua adesão à agenda da nova esquerda sionista.

Um post de 13 de janeiro mostra que o humorista esteve em Bethlehem, cidade palestina nos TPO, diante do Muro (que separa e anexa terras palestinas, construído a partir de 2002), um monumento às práticas políticas mais recentes de colonização. Diante da estrutura de concreto armado de oito metros de altura, ele escreve na legenda da foto: “Israel-Palestine border” (fronteira Israel-Palestina). Alguém da comitiva deve ter esquecido de avisar a Duvivier que atrás daquele Muro não havia Israel, mas os vilarejos palestinos de Al Walaja e Husan, que repousam “presos” entre a Israel reconhecida pela comunidade internacional e o Muro. Em outro post, em que se lia pichado no Muro “Make hummus not walls” (faça húmus, não muros), ele escreveu “Coexist” (coexista). Talvez fosse uma piada.


O Muro da Vergonha de Israel


Ainda em Bethlehem, Duvivier foi apresentado ao palestino Jamil. Cohen traz um relato do encontro: “Ele nos contou sua história de vida, que é marcada por muita violência, tragédias e luta pela paz. Jamil nos disse que participou da primeira intifada, sendo um dos que mais jogava pedras nos soldados israelenses. Viu seu irmão de apenas 14 anos ser morto por um soldado. Viu muitos amigos morrerem nesse conflito tão terrível. Ele tinha tudo para ter raiva, ódio e todo o sentimento de vingança em relação aos Israelenses. Mas não! Um acontecimento mudou toda a sua visão de mundo. Viu pela televisão uma notícia sobre um atentado terrorista de um grupo palestino em Jerusalém, que matou muitas crianças israelenses. Quando sua mãe começou a chorar, ele perguntou:

– Por que você chora, mãe? Isso foi do lado de lá… Os mortos não são palestinos, mas judeus – ele questionou.

– Choro porque outras mães perderam seus filhos pela violência, como eu. A dor é a mesma – respondeu ela.

E arrematou: “Jamil transformou tudo isso na luta pela paz! Hoje participa de diversos movimentos com Israelenses e Palestinos que lutam contra a ocupação e pela criação de 2 estados para 2 povos. Nosso encontro terminou com Jamil dizendo: ‘Não há outro caminho senão a paz’”.

Duvivier concordou. “Esse cara é meu herói. Conheci Belém com o militante palestino Jamil Qassas, que tem buscado alternativas para a paz. Procurem saber.” Em outro post, poucos dias depois, o humorista complementa: “O pior conflito, o mais difícil de resolver, não parece ser entre judeus e palestinos, mas entre seculares e fundamentalistas. A paz não interessa a quem vive de disseminar o medo. Qualquer semelhança com o Brasil não será mera coincidência.”


A vergonha do Muro da Segregação, do racismo


Como recomendado, fomos procurar saber mais. A atitude de Jamil pode ser vista como nobre, como uma saída para existir alienado de tanto sofrimento, da dor que transforma alguém em um monstro. O tema da resistência na sociedade palestina, no entanto, é um debate delicado e gira em torno da legitimidade do uso da violência. Qual a forma que pode fazer mudar as relações de poder para que o conjunto de Palestina/Israel possa ser menos autoritário e desigual diante do projeto do Estado judeu? Como os crimes de Israel – que trazem debates como o direito de retorno e a restituição de terra – podem ser expiados? Isso depende de como a pessoa de fora olha para os muros, os postos de controle e uma pesada presença militar, seja o cenário os morros do Rio de Janeiro ou as montanhas da Palestina.

A comitiva de Duvivier poderia ter recorrido à lei internacional para prover uma melhor explicação para a resistência palestina. Diz a resolução da ONU, de 29 de novembro de 1978, com o título “Importância da realização universal dos direitos dos povos à autodeterminação e da garantia urgente de independência para países coloniais e povos de garantia efetiva e observância de direitos humanos”. No seu item 2, “reafirma a legitimidade da luta dos povos por independência, integridade territorial, unidade nacional e liberação de dominação colonial e estrangeira e de ocupação estrangeira por todos os meios disponíveis, particularmente a luta armada”.

Há uma diferença entre luta armada e terrorismo, entre resistência e crimes de guerra contra civis, mas ao aceitar as molduras (físicas e ideológicas) traçadas pelo establishment de esquerda israelense, Duvivier termina por condenar a resistência palestina, colocando-a na mesma balança que os crimes coloniais israelenses. E mais: coaduna com a coexistência sem responsabilização que silencia os últimos cem anos de gradual desaparecimento da Palestina.


Duvivier comemorando o flamengo em Israel


QUANDO ESQUERDA E DIREITA SE ENCONTRAM


As viagens de Duvivier e Wyllis são parte de um esforço coordenado de propaganda de militantes sionistas ligados ao campo da esquerda no Brasil e em Israel, como o professor Michel Gherman e o militante do Psol Guilherme Cohen, e que conta com o apoio do establishment sionista no Brasil, como a Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj), movimentos sionistas juvenis, partidos políticos e instituições univesitárias. Já embarcaram neste avião o secretário-executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e ex-presidente da Comissão da Anistia do Brasil, Paulo Abrão (que defendeu Wyllis publicamente durante o entrevero público de sua viagem) e o professor de Relações Internacionais da UFRJ e comentarista da Globo News, Fernando Brancoli.

O discurso da esquerda sionista mistura em uma mesma narrativa a defesa de medidas como o Muro da Cisjordânia, a colonização dos TPO e o interminável processo de paz com elogios às liberdades políticas e econômicas que gozam os judeus israelenses e críticas ao governo Netanyahu, numa espécie de mea culpa. Vale dizer que, embora divergentes entre si em questões econômicas e sociais, a esquerda e a direita sionista não são muitos diferentes aos olhos de um palestino. Desde o início da colonização sionista da Palestina, no final do século XIX, ambos os campos direcionaram as suas políticas para a realização da visão hegemônica sionista sobre o território palestino: a constituição de um estado-nação majoritariamente judaico do qual os nativos palestinos não fariam parte.

A força do lobby israelense é motivo de controversa global, sendo alvo de estudos acadêmicos (o livro The Israel Lobby, dos americanos John Mearsheimer e Stephen Walt, aborda a influência israelense nos EUA — link para o prefácio em inglês) e de reportagens investigativas (uma recente série da Al Jazeera mostra a agressiva atuação de diplomatas israelenses no Reino Unido). Este instrumento de propaganda, entretanto, não é um expediente exclusivo dos liberais, sendo extensamente utilizado pelos conservadores israelenses.

No Brasil, os esforços de propaganda da direita sionista tem encontrado apoio principalmente entre os setores evangélicos, como o pastor Marcelo Crivella (PRB-RJ), prefeito do Rio de Janeiro, e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ). As igrejas pentecostais ao redor do mundo tradicionalmente veem os judeus como os legítimos habitantes da bíblica Terra de Israel e são importantes apoiadores das políticas do moderno Estado de Israel.

Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, é talvez o maior defensor dos interesses de Israel entre os políticos brasileiros. É de sua autoria o projeto de lei que levou à criação do Acordo de Livre Comércio Mercosul-Israel, em 2009, e também o que criou o “Dia da Amizade Brasil-Israel”. O bispo ainda empresta a sua voz para a música “Sou Israel”, que tem mais de 300 mil visualizações no canal do Templo de Salomão no Youtube.




O mandatário carioca já esteve em Israel algumas dúzias de vezes, chegando a morar em um kibutz em uma delas. “Brasil e Israel tem tudo a ver”, afirmou durante visita à Fierj na campanha para a prefeitura do ano passado. Ele defende uma maior aproximação comercial e política entre os países, principalmente na importação de técnicas e tecnologias israelenses em agricultura e segurança. Logo após ser eleito prefeito do Rio de Janeiro, Crivella viajou à Israel. De lá, voltou com a opinião de que o Rio “deveria sermurado como Jerusalém” para resolver seus episódios de violência.

Outro candidato à prefeitura do Rio de Janeiro que esteve em Israel recentemente foi Flavio Bolsonaro, que em maio deste ano foi acompanhar o batismo do pai nas águas do rio Jordão, o deputado federal Jair Bolsonaro, no rio Jordão, pelo pastor Everaldo, presidente do PSC. A família Bolsonaro recentemente aderiu em peso ao partido evangélico. Durante a viagem a Israel —que ocorreu nos dias da votação do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados — os Bolsonaro reuniram-se com políticos e representantes comerciais israelenses das áreas da segurança e da agricultura e prometeu fortalecer os laços entre os dois países.



Bolsonaro é fiel apoiador do estado terrorista de Israel


Assim, dentro de um campo que, pouco a pouco, ignora os pontos que poderiam levar a uma resolução da questão palestina, consolida-se um discurso que se afasta de qualquer processo de paz, fazendo marchar a colonização que gradualmente quer apagar, ou limpar, como diria o historiador Illan Pappé, a Palestina.

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Israel-Brasil, as conexões perigosas


Brasil-Israel, as conexões perigosas
“Caveirões” de Israel, importados com finalidade explícita de reprimir protestos populares: apenas um dos itens da vasta pauta de vendas militares de Telaviv ao Brasil


Como Exército, PMs e forças privadas de segurança brasileiras tornaram-se grandes compradores de material bélico e de vigilância israelense. Por que negócios favorecem opressão da Palestina


Por Júlia Dolce e Victor Labaki, Brasil Fato


Uma placa metálica com a foto de um menino magro decora a entrada do campo de refugiados de Aida, em Belém (Cisjordânia). Um texto curto explica, em inglês e árabe, que o garoto franzino era Aboud Shadi, apelido de Abed Al-Rahman Shadi Obeidallah. Ele foi assassinado por um soldado israelense no dia 15 de outubro de 2015, exatamente naquele local, quando tinha 13 anos. Aboud Shadi conversava com amigos.

Segundo os relatos de várias testemunhas, Abud estava parado quando o sniper [atirador de elite] atirou, de frente ao muro que divide os territórios anexados israelenses de Belém, atingindo o garoto no coração. Ele foi levado ao hospital, mas não resistiu. Sem razão aparente para a ação, as forças militares israelenses confirmaram que o assassinato “foi um erro”, e o soldado responsável permanece impune. Na placa em homenagem a Aboud, lê-se: “Minha alma continuará aqui, perseguindo o assassino e motivando meus colegas de classe. Eu me pergunto quando a comunidade internacional trará justiça para as crianças palestinas”.

Soldado israelense mata menino palestino de 13 anos


Com olhos marejados e voz baixa, Shadi Obeidallah, pai de Aboud, contou para a reportagem que todos os dias passa em frente à placa, já danificada com buracos de outros tiros. “Parece que ele está me perguntando o porquê de eu não ter o protegido da ocupação, porquê deixei ele ser morto, disse.

A presença de Aboud é constante na vida do pai. “Eu penso nele o tempo todo. Colocamos um prato e talheres para ele na hora do almoço. Todos os dias eu volto para casa do trabalho, faço café e converso com a foto dele em um porta-retrato. É minha hora preferida do dia”, disse.

No ano passado, Shadi encontrou com o então secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-Moon, na cidade palestina de Ramallah, e perguntou o que poderia fazer pelas crianças palestinas assassinadas. “Ele não me respondeu”, disse. Logo em seguida, ele encerrou a entrevista: “Não é fácil falar sobre isso”.

O que Shadi provavelmente não sabe, entretanto, é que, uma semana antes do assassinato do filho, o Comitê sobre os Direitos da Criança da ONU divulgou relatório acusando a Polícia Militar brasileira de matar crianças em situação de rua com o objetivo de “limpar a cidade” para os Jogos Olímpicos de 2016. Em julho do mesmo ano, a Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) publicou relatório mostrando que 28 pessoas menores de 19 anos foram mortas diariamente no Brasil, uma taxa maior do que em zonas de guerra, de acordo com a agência.

O laboratório

A conexão entre os dados e a morte de Aboud Shadi seria apenas uma coincidência, se não fosse o fato de que tanto o treinamento quanto a renovação bélica da Polícia Militar e do Exército brasileiro para os megaeventos esportivos entre 2014 e 2016 foram importados das Forças Armadas israelenses.

Segundo especialistas no tema, o Brasil é um dos maiores clientes da indústria de armamentos de Israel. Matéria publicada na Folha de S. Paulo em janeiro deste ano mostra que o Exército Brasileiro fechou acordo de R$ 6,3 bilhões com empresas israelenses para compra de blindados nos próximos anos. Uma das fornecedoras – a empresa Elbit – é acusada de ter construído drones que mataram 164 crianças palestinas em Gaza, durante a ofensiva de 2014. Os dados são da ONG Defense for Children International Palestine (DCI).

De acordo com informações fornecidas à reportagem pela organização Who Profits, centro de pesquisa dedicado à monitoração das relações comerciais envolvendo multinacionais israelenses, a Elbit foi uma das primeiras companhias israelenses a entrar no mercado de vigilância brasileiro. A organização destacou outras empresas que também operam no Brasil, como a Afcon Holdings, que desenvolve sistemas de controle presentes nos checkpoints da Cisjordânia; a Carmor, especializada em veículos militares; e a Contact International, também produtora de equipamentos militares.

Segundo o antropólogo e escritor israelense Jeff Halper, as relações econômicas e bélicas entre Brasil e Israel são muito significativas. “O Brasil é um grande cliente. (…) O principal ponto da indústria militar israelense é que ela não fica apenas no militar, atua na segurança e no policiamento. No Rio de Janeiro e em outras cidades onde você tem policiais de pacificação em favelas, eles são treinados por israelenses e com armas israelenses.

Para Halper, que já foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz pela atuação “em prol da libertação dos palestinos”, a importância que o Estado de Israel assumiu no contexto internacional está relacionada justamente à exportação de inteligência militar. “Israel está em todos os países, não apenas diretamente no sentido militar, mas em termos de treinamento, exportação de armas, unidades de operação especial, segurança presidencial. Está mais dentro das sociedades do que os Estados Unidos, exatamente porque eles ficam nos termos militares e nós vamos para a segurança, a polícia, as prisões”, explicou.

Na opinião do escritor, é exatamente esse papel internacional que livra o país de condenações na Justiça. “Dessa forma, Israel escapa do fato de fazer uma ocupação há 50 anos, de estar realizando crimes de guerras, dezenas de violações da lei internacional da ONU. Mesmo com tudo isso o status internacional de Israel é positivo. A única explicação para isso é a política de segurança de Israel, um país minúsculo que transforma segurança militar e policial em poder político. (…) Em um país como o Brasil, com todas as desigualdades, Israel vai dar todo o sistema de segurança e vigilância para controlar a população. Esse controle populacional é o que fazemos há 70 anos. Somos um laboratório, controlamos palestinos e isso é o que nos diferencia no mercado: milhões de palestinos indo para os checkpoints diariamente”, analisou.

A expressão “laboratório” é utilizada por diversos ativistas para descrever a relação militar de Israel com os territórios ocupados palestinos. O documentário “The Lab”, do diretor Yotam Feldman, explora exatamente essa relação e importância para a legitimidade da indústria bélica israelense. No filme, o Brasil é novamente citado como um grande parceiro comercial de Israel, e algumas cenas mostram tanques e armas israelenses sendo utilizadas em operações no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro, favela que é popularmente conhecida como a “Faixa de Gaza” carioca.

A ativista israelense e estudante de pedagogia Sahar Vardi é uma liderança no movimento contra a militarização e ocupação de Israel na Palestina. Presa por dois meses durante processo de ‘recusa’ ao serviço militar obrigatório, Sahar acredita que a utilização da tecnologia militar nos palestinos é “definitivamente o diferencial no mercado”. “Nós exportamos para mais de 130 países, não há dúvida de que a exportação da militarização de Israel é um fenômeno mundial. A ocupação não é uma necessidade para a indústria militar, nem vice-versa, já que essa indústria começou nos anos 1970 e já havia ocupação antes disso. Mas sem dúvida há um interesse econômico da indústria em manter a ocupação”.

Segundo Sahar, em 2013, o governo brasileiro destinou 1,13% do Produto Interno Bruto (PIB) do país para “modernizar as forças armadas com equipamentos israelenses”. Ela destaca a companhia israelense International Security & Defense Systems (ISDS), que faz treinamentos para as polícias brasileiras em favelas. No site da companhia, já na página inicial, consta o slogan de “fornecedora oficial dos jogos olímpicos Rio 2016”. No final da página, a conexão com Israel é abertamente marcada. “A ISDS é uma empresa registrada e certificada pelo Ministro de Defesa de Israel e opera de acordo com suas regulações e diretrizes”.

Militarização

No mirante que marca a saída do museu do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém, Yahav Zohar, ex-guia do museu, aponta para a vista de um assentamento israelense. Ele explica, em voz baixa, que antigamente havia uma vila palestina no local, destruída durante a Nakba em 1948 (nome palestino para o processo de construção do Estado de Israel, que significa “catástrofe”). Repleto de imagens fortes sobre as consequências do nazismo, a proposta do museu – exemplificada até mesmo na arquitetura – é celebrar a conquista de Israel como uma espécie de redenção para os judeus.

Yahav, que serviu o exército como a maior parte da população judia de Israel, pediu demissão do emprego no museu por não poder compartilhar as críticas que tem sobre a ocupação israelense na Palestina. Pelo mesmo motivo, um amigo dele, que também era guia, foi demitido. Entre diversos grupos de soldados que visitavam o museu como parte obrigatória do serviço, Yahav mantinha um tom de voz discreto e parecia afastar memórias ruins.

“Há similaridades entre o holocausto e o que estamos fazendo aqui com palestinos. O problema é que acreditamos que essa foi a única tragédia da humanidade, quando não foi mais importante ou horrível do que a escravidão em toda a América, por exemplo. Nós temos que parar de acreditar que estamos em perigo o tempo todo. Se você se esforça tanto para lembrar uma parte da história quanto para suprimir outra parte, você perde seu argumento”, opinou.

Educação

A visita ao Museu Yad Vashem é realizada pelo menos três vezes durante a vida dos israelenses. Além da ida pelo Exército, as escolas de Israel levam estudantes quando crianças e durante o ensino médio. Para Nurit Peled, professora da Universidade Hebraica de Jerusalém, ativista e estudiosa da forma como os palestinos são retratados no sistema educacional israelense, a educação militar é uma das principais facetas do sionismo atual. “Eles têm processos de segurança na escola a partir dos três anos, os soldados vão para os jardins de infância e contam para as crianças todo o tipo de informações. Eles são modelos, a maior aspiração de todo jovem é ser soldado, seja ele de direita ou de esquerda. O maior desejo dos pais é que os filhos sejam soldados. Eles foram doutrinados da mesma forma”, explica.

Alguns feriados israelenses, para ela, também mostram como a militarização é cultuada na sociedade. “Eles aprendem muito sobre o Dia de Independência, o Dia em Homenagem aos Soldados e o Dia do Holocausto. Celebram os assassinatos de árabes. É tudo relativo à morte. A imagem que a militarização vai nos salvar de um outro holocausto é muito forte. É bastante difícil para um jovem se rebelar contra isso, os números de pessoas que recusam o exército, por exemplo, são praticamente inexistentes”.

Sionistas qeurem matar árabes em câmara de gás
Pixação sugerindo matar árabes em câmaras de gás, feita em frente à escola infantil palestina, em Hebron.


A história da recusa de Sahar ao serviço obrigatório, mesmo para ela própria, é uma exceção. “Cada um de nós [amigos que também recusaram o alistamento] foi aprisionado por cerca de uma semana ou um mês. Depois fomos mandados novamente para a base militar para continuar nosso ‘serviço’. Então recusamos de novo e fomos condenados novamente. Esse processo se repetiu algumas vezes. É um processo muito difícil, algumas vezes eu me pegava pensando porque estava fazendo aquilo. O efeito psicológico das prisões é muito grande”, explicou.

Para a ativista, a militarização na sociedade israelense influencia diversos aspectos sociais. “Parte disso é o fato de carregarmos armas o tempo inteiro para todos os lugares, já que os soldados podem levar as armas para casa nos finais de semana, levar para festas e transportes públicos. Mas vai além disso. Nós incorporamos parte da linguagem militar na nossa comunicação diária e nem pensamos nisso, é completamente internalizado. A forma como estudamos história é muito centrada no nacionalismo e nas Forças Armadas. Nas propagandas e comerciais, há sempre soldados, pois eles são idealizados, são o modelo. A militarização e o medo estão realmente em todos os aspectos da sociedade”.

Na opinião do colono israelense-estadunidense Bob Lang, representante do assentamento de Efrat e defensor da ocupação militar da Palestina, os israelenses não vivem em constante medo. “Para mim, a militarização é normal. É natural ver soldados com armas na rua e que as crianças sejam revistadas nas escolas, não é bom ou ruim, é só o jeito como as coisas são. Obviamente, eu gostaria que as Forças Armadas não precisassem existir e espero o dia em que isso aconteça. (…) Eu não vivo com medo aqui, não mais. Tenho mais medo da minha filha viajando pela América do Sul do que servindo ao Exército em Israel”, afirmou.


O mesmo não pode ser dito por Shadi Obeidallah, pai de Aboud. Perguntado sobre os sonhos e gostos do filho, afirmou: “Ele sonhava, como qualquer outro palestino da idade dele, em brincar em segurança. Passou toda a vida no campo de Aida, mas os soldados não o deixavam brincar. Se viam as crianças brincando, jogavam gás lacrimogêneo e atiravam com balas de borracha. Como qualquer menino, ele só queria brincar sem estar em perigo”.


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